NOTÍCIAS

29/07/2016

O agro nunca será tudo, mas pode ser muito mais.


Republicao do original do site Revista Globo Rural

Em artigo exclusivo, o diretor da SPVS fala sobre a importância da agricultura, da pecuária e da silvicultura para as exportações no país. 

POR CLÓVIS BORGES*

diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, Clóvis Borges (Foto: Divulgação). 

 

A campanha publicitária de âmbito nacional que reverbera a influência do chamado agronegócio na vida de todo cidadão demonstra uma força que, nas circunstâncias atuais, identifica um avanço determinante em influência política e econômica majoritária.

Talvez a pretensão dessa propaganda maciça seja reiterar a liderança exercida pelas musculosas organizações que representam as linhas da produção rural. Agriculturapecuária silvicultura, juntas, são tremendamente significativas para garantir exportações no país. Formam grupos empresariais gigantescos, alicerçados pela industrialização crescente de seus produtos básicos, embora as commodities ainda sejam um negócio muito importante.

Mas é evidente que a alegação de "ser tudo" é um tanto exagerada. Para alguns, pode deixar uma impressão arrogante, em que o universo mais distante das amplas ramificações das atividades do agronegócio não é considerado relevante. Ou, numa interpretação distinta, infere que essas ramificações são tão abrangentes que nada existe sem um dedo do agro.

Seja como for, estamos na era em que a grande agroindústria, com todas as suas estruturas alinhadas, abre-se à sociedade como uma fração dos negócios dominante no país. Como que saindo da casca para se mostrar com maior evidência, a campanha que está no ar corrobora com essa estratégia de tentar conquistar a sociedade urbana, tida como pouco afeta aos problemas do campo.

O poder e a supremacia de um determinado setor frente a outras atividades, no entanto, também precisa abrir espaço para uma agenda ainda mais ampla. É uma condição de bom senso que aquele que tem maior capacidade de investir é o que deve ter a responsabilidade de ampliar suas ações para atividades de interesse comum. Cabem agendas de interesse público abrangente e não apenas setorial.

Todos querem a fixação de famílias no campo, a garantia de bons negócios e a perenidade de atividades rurais, com produtividade, tecnologias amigáveis com a saúde e o bem estar das pessoas e o meio ambiente. Ao mesmo tempo, a grande maioria da população brasileira, que não é ligada à agricultura, também busca seus espaços, de qualidade de vida e oportunidades de emprego, numa diversidade econômica que precisa ser fortalecida como um todo.

Hoje o agro, com a força que apresenta em sua propaganda, pode fazer muito mais. Há enormes desafios tecnológicos para a evolução da produção rural de alimentos e de outros produtos. Tanto no que se refere à busca de maior produtividade, quanto às formas menos agressivas de produção, minimizando o  uso de fertilizantes e de agrotóxicos, gerando práticas de bem estar animal, controle no uso extensivo de território e assim por diante.

E pode fazer muito mais. Existem possibilidades plenas de maior proximidade entre a agenda da conservação da natureza e a da produção rural. Quem venceu a queda de braço política para mudar o Código Florestal Brasileiro foi o agro. Mas agora, depois de mais de cinco anos de uma nova Lei aprovada com maciço envolvimento da classe ruralista que povoa o Congresso Nacional, há atrasos e desvios na condução do que representou, supostamente, um compromisso mínimo desse mesmo agro com o resto da população brasileira.

A bem da verdade, é a natureza mesmo que é tudo. E isso significa a existência de áreas naturais bem conservadas em porções de cada propriedade rural. Negando essa obviedade, o agro, e todos nós, corremos o risco de não sustentar por muito tempo as riquezas que estão sendo produzidas a partir da exploração que fazemos de nossos recursos naturais. E a sensação de poder ilimitado que pode estar nos atingindo nesse momento, representar apenas um momento de uma existência que, se quiser manter-se de pé, necessariamente precisa atender às premissas de longevidade e de equilíbrio com o meio ambiente.

Não se trata de uma agenda excludente, mas de um ajuste real e honesto entre o que podemos produzir e o que devemos conservar. Que o agro avance para ser mais, ajudando o Brasil a conservar seu Patrimônio Natural. Necessitamos da água de boa qualidade, do clima equilibrado, e da infinidade de serviços que as áreas naturais, fortemente ameaçadas de nosso país, ainda conseguem nos prover.

O autoelogio de onipotência e de onipresença soa quase como de viés religioso. Exacerba no intuito de buscar reconhecimento de típico "nouveau riche". Mas com lastro de poder para impor a todos essa forma. Se alguma autocrítica correr em paralelo, quem sabe surja inspiração para despertar agendas em que todos possam realmente sair ganhando.

*Clóvis Borges é engenheiro florestal e diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

 
VOLTAR
Fundação Neotropica do Brasil © 2016
kayseri escort bursa bayan kayseri escort bayan istanbul escort sakarya escort eskişehir escort hacklink
paykasa paykasa kart gebze evden eve nakliyat